Sexta-feira, 29 de Setembro de 2006

O BICHO DA ESCRITA - Rui Zink

                    

                     

 

Todos os meus amigos escrevem. Excelente. Todos os meus
amigos gostam de escrever. Formidável. Eu próprio não desgosto
de escrever, embora já não o faça. Escrever é bom. Escrever
as palavras. Escrever as coisas. Escrever o mundo.
O mundo dentro de nós. E o mundo fora de nós. Todos os
meus amigos escrevem. Todos os meus amigos são escritores.
Todos os meus amigos fazem livros.

E o pior é que não são só os meus amigos. As outras pessoas
também. Os meus vizinhos escrevem – poemas. O senhor
que entregava as cartas também escreve – livros de viagens,
acho. A empregada do café escreve romances policiais, o funcionário
do banco escreve novelas de amor, o dono da mercearia
escreve – romances históricos. A minha mãe escreve ficção
científica, os meus irmãos escrevem banda desenhada, até os
nossos primos mais afastados escrevem – acho que best-sellers,
mas não tenho a certeza, podem ser apenas ensaios de hermenêutica
neo-visigótica.

Só o meu pai não escreve, porque já morreu. Se estivesse
vivo escrevia de certeza, e até sei o quê – novelas picarescas. No
hospital, todos os doentes escrevem e os médicos que lhes
prescrevem as receitas também escrevem. Da literatura inclusa
à literatura médica, nem mesmos os enfermeiros, os maqueiros,
os polícias de piquete ou os funcionários do balcão de
atendimento deixam de escrever.

Esta situação é preocupante. O governo já anunciou que irá
tomar medidas. Não é de excluir, admitiu o porta-voz do governo,
que seja declarado o estado de emergência. O porta-voz do
governo já não fala – ele próprio foi atingido pela doença. Eu
por acaso li o que escreveu, mas não sei se ele estava a falar a
sério – a escrever a sério – ou se era apenas mais um capítulo da
sua nova (e interessantíssima) ficção política. Aliás, devo ter
sido o único que o leu ou, vá lá, um dos poucos. Porque deve
haver mais como eu, quero dizer, tenho de partir desse princípio,
não? Convém não confundir o facto de não conhecer mais
ninguém como eu com a assunção, quiçá precipitada, de não
haver mais ninguém como eu.

A doença é altamente contagiante. Faz o Ebola parecer um
vírus de brinquedo, tal a velocidade a que se reproduz e transmite.
O período de incubação dura entre três a seis horas, findo
o qual a vítima, até então uma pessoa normal, se torna abruptamente
num escritor. Os hospitais estão a rebentar pelas costuras,
a abarrotar de gente obcecada pela sua dose de papel e
caneta. E cada vez têm de escrever mais, de aumentar a dose,
porque cada vez têm mais e mais ideias, mais e mais amor à
literatura, às belas palavras, à poesia secreta que se esconde
por trás das belas palavras – mesmo das feias, dizem os casos
terminais.

Os cientistas ainda não conseguiram isolar o vírus, ou
encontrar um antídoto, ou mesmo simplesmente identificar a
origem da doença, ou explicar-lhe a natureza, porque… pois,
isso mesmo, estão todos ocupados a escrever. Há pessoas que
já definharam e se consumiram por inanição. Nada de espantar,
é até bastante lógico, embora escabroso: escrevem, não
comem, morrem.

Acidentes ocorrem em massa. Os despistes são mais que
muitos. Por toda a cidade se ouvem explosões. Os taxistas vão
muito bem a meter a terceira, lembram-se de uma frase,
põem-se a escrever, largam o volante e… É terrível.

Até as crianças se põem a escrever. As que ainda não sabem
o alfabeto inventam um, ou garatujam bonecos simbólicos, e
inventam histórias, histórias, histórias. Bebés de um ano, que
digo?, de meses, pegam numa caneta, num lápis, e mexem as
mãozitas fechadas para a frente e para trás, com uma habilidade
inaudita. Claro que acabam por rasgar o papel e rabiscar
o chão todo para além das esparsas fronteiras da folha branca,
mas não se importam com isso, continuam sem parar a escrever
os símbolos do mundo. E os pais também não ligam, porque
eles próprios estão ocupados a escrever, e o que é um chão
todo rabiscado em comparação com um brilhante conto infan-
til onde uma princesa ajuda um cavaleiro a não se perder na floresta
negra onde vai combater um dragão maligno com a simples
dádiva de um dos seus belos cabelos louros? Hum?

Nunca se viu nada assim. A situação é grave, toma proporções
calamitosas e não há sinais de se vir a atenuar. Gostaria de
o dizer de outra maneira, mas não há outra maneira de o dizer:
o mundo corre o risco de sucumbir ao peso de tantos romances,
contos, ensaios, novelas, poemas. Os poemas, esses então,
são mais que as mães. Odes, elegias, éclogas, adágios, quadras,
redondilhas, dísticos, ditirambos, alexandrinos, pastorais,
quintanilhas, décimas, duodécimas, litotes, sonetos, sonetinos,
sonatinas.

Não estou a ser alarmista. A Terra já saiu ligeiramente da
órbita. E o número de escritores e poetas não pára de aumentar
de dia para dia. E o número de palavras escritas. E de frases inovadoras:
curtas, longas, frases de uma só palavra (“Ele. Disse.
Para. Ela.”), frases sem vírgulas durante duzentas páginas
(“Não vale a pena dar aqui um exemplo teria de ocupar duzentas
páginas mas esta pequena amostra talvez já sirva para dar
uma ideia ou então o melhor ainda é pelo menos gastar mais
meia linha com esta frase idiota de modo a que a ideia que estava
a tentar ser dada seja mais clara e convincente e acho que
agora já chega o exemplo já está dado acho”), torniquetes e arrebites
de sintaxe que não julgaríamos possíveis ou razoáveis.

Uma pessoa pergunta-se sempre: “Que mais irão eles inventar?”.
Ou “Será que ainda há algo para inventar?” Pelo menos
era o que me perguntava antes – antes da epidemia. Pois se há
coisa que a doença veio provar é que as possibilidades de
invenção – e as capacidades humanas de inventar – são inesgotáveis.
É triste, mas é a dura realidade: a imaginação humana
está em contínua expansão, como o universo. A imaginação
humana é como um buraco negro, tudo consome, tudo devora.
E a humanidade corre o risco de se extinguir por causa
disso. Por excesso de imaginação, por excesso de talento, por
excesso de criatividade.

Com franqueza, há um limite para tanta produção artística
e cultural. Ou devia haver, porque, pelos vistos, não há.

Ainda por cima de qualidade. Sim, porque, quem sou eu
para o negar?, as pessoas não só escrevem como ainda por
cima o que escrevem é bom, é interessante, é válido, merece
ser lido, tem estilo pessoal, vem ocupar um espaço no espaço
da literatura que estava por ocupar porque não sabia, antes de
ser ocupado, que esse espaço existia e era ocupável. Cada pessoa
cria o seu nicho com a mesma avidez e a mesma precisão
milimétrica com que a andorinha constrói o seu ninho. E, se é
certo que uma andorinha não faz a primavera nem um escritor
chega para fazer a literatura, muitas andorinhas juntas, milhares,
milhões, biliões de andorinhas juntas chegam e sobram
para fazer à vontade uma caterva inteira de primaveras: sobretudo
daquelas que trazem como brinde gratuito uma senhora
porção de verões, outonos e, claro, invernos. Esse é que é o
busílis.

E esse é também o génio do vírus. Põe as pessoas a escrever
– e a escrever bem. Se lhes desse a vontade, mas não o talento,
ainda era como o outro. Um médico que descobre, ao fim de
centenas de páginas, que se limitou a parodiar Fernando
Namora, pode ainda voltar a exercer medicina, a fazer aquilo
para que tem realmente jeito. Uma advogada que se dê conta de
que nem todas podemos ser Agatha Christie ainda pode ser útil
aos seus clientes. Mas que fazer com um obstetra que faz páginas
belíssimas? E com uma causídica que nos faz ficar na dúvida
sobre quem é o criminoso até ao derradeiro parágrafo?
Hum? É triste. É trágico. É insuportável. Histórias bem arquitectadas,
com indiscutível mestria, personagens credíveis, textos
que compreendem a essência da coisa literária: que não é nas
palavras, mas para além das palavras, que se encontra a beleza
do texto.

A princípio até houve uma euforia colectiva, os jornais falavam
de um “novo nascimento”, os críticos de um “momento
ímpar” da nossa literatura, os poderes públicos da pujança de
uma “nova geração de criadores”. Só depois começaram os
pequenos indícios de que poderia haver algo de errado neste
surto de talento, mas ninguém conseguiu – ou quis – ver o que
estava a acontecer. E, verdade seja dita, por essa altura também
já muita gente estava contaminada e começara a escrever, primeiro
com alguma hesitação e sentido de responsabilidade,
depois cada vez mais furiosamente – até ao romance final.

Agora? Agora o mundo é um lugar lúgubre, são tempos
enegrecidos, estes. E o pior é quando chegar o inverno. No
verão ninguém dá por falta das formigas, apenas das cigarras.
Mas quando chega o inverno… Os mercados estão vazios, a
distribuição de pão e outros alimentos básicos não é feita, o
próprio pão não é feito. As lojas estão vazias, abertas, escancaradas
para a rua, mas vazias. Sem ninguém a guardá-las,
sem ninguém nas caixas, sem ninguém para acender ou apagar
as luzes. Nos hipermercados, uma pessoa pode levar para
casa tudo o que quiser nos carrinhos metálicos. Mas, se não
tiver uma moeda, não pode levar nem um carrinho porque não
há onde trocar a moeda.

Há, claro, coisa boas. As televisões deixaram de funcionar.
Acabaram-se as telenovelas, as “novelas da vida real”, e a ironia
é que se acabaram precisamente na altura em que se multiplicou
por mil o número de autores de telenovelas. Só que já
não há ninguém para as filmar: actores, operadores de câmara,
maquilhadoras, realizadores, produtoras, assistentes de
realização, equipas de luminotecnia, guarda-roupa, pós-produção
e montagem, estão todos cada um para seu lado a escrever
o livro das suas vidas. Também, seria preciso dizê-lo?, já
não há boletim meteorológico. Receio que aconteça o pior se
os barcos forem para o mar sem saber que mau tempo os espera.
Mas imediatamente me dou conta da parvoíce que acabo de
dizer. Já não há niguém para se fazer ao mar, os pescadores
abandonaram as redes, os arpões, os convés, os iscos, e estão
todos de papel e caneta a descrever relatos de naufrágios, aventuras
com peixes de nome impronunciável, palimpsestos de
Moby Dick, versões melhoradas e adaptadas aos tempos modernos
da noveleta de Hemingway, O Velho e o Mar.

Há bocado disse que eu devia ser o único a ter lido o último
comunicado do governo. Depois corrigi e disse que não, talvez
não seja o único. Talvez não seja, de facto, mas até agora não
sei onde estarão os outros, esses outros que ainda não foram
atingidos por esta loucura colectiva, nem se serão como eu ou
se terão eles mesmos sofrido alguma mutação. Não sei por
que motivo fiquei imune ao vírus. Terá a ver com o meu ADN,
o meu código genético, com o meu tipo de sangue, com a insuficiência
(ou o excesso) de melanina nos meus poros? Faltamme
os conhecimentos científicos para o poder dizer sem correr
o risco, impróprio sobretudo nesta ocasião, de cair na ficção
científica ou no delírio fantasista disfarçado de saber
objectivado.

Se não sou a única pessoa no mundo que, neste momento,
neste talvez derradeiro momento da humanidade, lê o que os
outros escrevem, onde estão os meus camaradas de armas?
Será possível reunirmo-nos e criar um bastião de resistência,
uma organização underground que lute contra a epidemia e, através
do estudo, da leitura, da experimentação teórico-prática,
encontre uma solução para devolver a saúde aos homens e pôr
de novo o mundo a funcionar? Não sei. Confesso que não tenho
muita esperança.

Eu sou um leitor. Sei o que sou: leio o que outros escrevem.
Faço-o até compulsivamente. De manhã, ao pequeno-almoço,
mesmo que não tenha um jornal pela frente, as páginas com a
tinta ainda fresca aflorando a chávena de café, os meus olhos
percorrem instintivamente a mesa, à procura de palavras,
letras, frases para ler: “Corn Flakes”, “rico em vitaminas e
minerais”, “Loja 18 – Rua Camilo Castelo Branco, 15-A”, “Planta
– margarina vegetal, 250 gramas”… Depois, à medida que o
dia avança, vou lendo tudo: todos os jornais, todos os anúncios,
todos os números de todas as portas, todos os nomes de todos
os médicos na placa da policlínica que fica na rua pela qual perpasso
todos os dias. Leio todos os romances que me passam
pela frente, leio todos os ensaios que consigo ler, todos os poemas
que me passam para a mão quando, à hora do almoço, vou
comer um mini-prato ao balcão da pastelaria do bairro onde
fica o meu emprego, no qual tenho por função ler todos os
documentos que colocam em cima da minha secretária para
esse mesmo devido efeito, que é eu lê-los.

É verdade, não sei por que milagre fiquei imune ao vírus.
E o engraçado é que nem sempre fui assim. Em jovem, eu próprio
tentei escrever. Pode-se lá viver sem ter tentado escrever!
Embora nessa altura, devo dizê-lo, houvesse muito menos
gente a escrever. Eram outros tempos, havia muito analfabetismo,
era uma vida de trabalho. Depois, descobri que preferia
ler. Mas antes, confesso, eu próprio tinha a mania de escrever.
Nada especial, acho: uns poemetos, um ou outro conto, dois
ou três esboços de diálogos para teatro. Mas não vale a pena
escondê-lo, eu tinha a mania de que sabia escrever.

Talvez por isso eu tenha ficado imune, se calhar o meu pecadilho
de juventude – queria ser escritor! – funcionou como vacina.
Isso protegeu-me, até à data, admito, mas não sei até que
ponto isto é uma bênção ou uma maldição. Sou um leitor num
mundo de escritores, e isso faz-me sentir muito sozinho. Porque
todos escrevem – mas ninguém lê o que os outros escrevem.
Ninguém senão eu. Não têm tempo. Estão tão absortos a
contar a sua história, a conceber o seu monumento de imaginação
e arte, que não têm tempo para ler. Nem é uma questão
de ter tempo, é que, simplesmente, já não conseguem. Não conseguem
ler. E, qualquer dia, já não sabem ler. As línguas assim
vão acabar, ainda antes mesmo do mundo, porque cada um vai
cada vez mais e mais escrever na sua própria língua, no seu
código muito pessoal, esquecendo-se de que a comunicação
tem dois sentidos e que, para se ser compreendido, é preciso
partilhar os elementos para essa compreensão. Não lêem. Só
escrevem. Morrem. Tal é a potência, a perversão demente do
vírus.

E você? Não sei se existe, caro/a colega de sobrevivência
neste mundo em colapso. Se ler isto, é porque ainda existe, e
então fica a saber que, algures no planeta, talvez mesmo na sua
cidade, há alguém que partilha os seus medos, angústias, mas
também as suas esperanças. E talvez possamos encontrar-nos,
era mesmo bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto,
para unir esforços, e procurar outros como nós: leitores
imunes ao bicho da escrita. Bem sei que a sua primeira reacção
talvez seja pensar: “Este tipo está a tentar enrolar-me. Ele próprio
é um escritor, não um leitor de verdade. Ele próprio foi
contaminado e está a tentar fazer-me crer que não, provavelmente
com algum fim pouco honesto.”

Está no seu inteiro direito de pensar isso, eu também o pensaria
se me aparecesse pela frente uma história assim. Nós não
somos desconfiados por natureza, mas por cultura – e nunca
ninguém perdeu em desconfiar do vizinho. Peço-lhe apenas o
benefício da dúvida. Peço-lhe? Imploro-lhe. Aqui onde me vê,
estou de joelhos, implorando-lhe que acredite em mim. Isto
não é uma história, isto não é ficção. Estou apenas, genuinamente,
a tentar estabelecer contacto com alguém que exista do
outro lado da página.

Estou a estender-lhe a mão. Por favor, considere a possibilidade
de me estender a sua.

Só mais uma palavra. Não escreva a responder. Bem sei que
se calhar está imune, mas nunca se sabe. Apareça, apenas. Eu
saberei reconhecê-lo/a, e você também me reconhecerá com
facilidade. Seremos os únicos – na praça, no jardim, na rua, no
café, onde quer que nos encontremos – sentados pacatamente,
com um sorriso nos lábios e um livro, aberto, na mão.

 

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Este blog persegue os objectivos do «Plano Nacional de Leitura» e promove, paralelamente, a participação da Escola Secundária de Palmela no «Projecto Ler Consigo» da Associação de Professores de Português/APP.

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