Segunda-feira, 31 de Março de 2008

PADRE ANTÓNIO VIEIRA (1608-1697)

 

               

 

«Há homens que são como as velas;

sacrificam-se, queimando-se para dar luz aos outros.»

 


 

António Vieira foi um padre jesuíta do século XVII, missionário e diplomata, que passou parte da vida no Brasil e ficou para a história como precursor na defesa dos direitos humanos e grande prosador da língua portuguesa.

                                                                                                   

Há quatro séculos, e ao longo de 89 anos de vida, atravessou sete vezes o oceano Atlântico e percorreu milhares de quilómetros no Brasil, Amazónia incluída, tendo deixado uma vasta obra literária, composta por 200 sermões, 700 cartas, tratados proféticos e dezenas de escritos filosóficos, teológicos, espirituais, políticos e sociais. Fernando Pessoa chamou-lhe «Imperador da Língua Portuguesa».

Nasceu no dia 06 de Fevereiro de 1608 na Freguesia da Sé, em Lisboa, primogénito de quatro filhos de Cristóvão Vieira Revasco, um escrivão de origem alentejana cuja mãe era negra, e de Maria de Azevedo, lisboeta, e partiu para o Brasil com a família aos sete anos de idade.

Em Salvador da Bahia, frequentou o Colégio dos Jesuítas e entrou para a Companhia de Jesus em 1623.

Antes de ser ordenado padre, em 1634, já proferira os primeiros sermões e rapidamente adquiriu fama de notável pregador, começando a catequizar indígenas e tornando-se seu defensor, depois de ter aprendido as respectivas línguas - estes chamavam-lhe «Paiaçu», que significa «Pai Grande».

Em 1641, após a restauração da independência de Portugal, regressou a Lisboa, onde conquistou a amizade e confiança do rei D. João IV que, ao longo de 11 anos, o incumbiu de difíceis e perigosas missões em França, na Holanda e em Itália.

Acreditava veementemente na vocação expansionista portuguesa, tendo escrito num dos seus sermões: «Por isso nos deu Deus tão pouca terra para o nascimento e tantas terras para a sepultura. Para nascer, pouca terra, para morrer, toda a terra; para nascer, Portugal, para morrer, o mundo».

Nunca deixou de seguir estritamente as regras da retórica e de se subordinar aos interesses da Companhia de Jesus, afirmando-se sempre como um homem de fé.

«Nenhuma cousa quero senão acertar com a vontade de Deus, pelos meios que ele deixou neste mundo para a conhecermos», declarou, numa carta enviada do Estado do Maranhão ao padre André Fernandes, em 1654.

Todavia, quando os interesses da Coroa se sobrepunham aos dos Jesuítas, defendem os estudiosos que Vieira privilegiava os da Coroa.

Assim se entende que, nas suas missões pela Europa ao serviço de D. João IV, além de ter negociado a aquisição de Pernambuco aos holandeses, tenha também angariado fundos para a guerra contra Castela e para financiar as Companhias Comerciais do Ocidente e do Oriente, comprado munições e recrutado mercenários.

Para António Vieira, Portugal era um instrumento da providência divina, fundador de uma nova era da cristandade e estava destinado a ser, depois dos caldeus, persas, gregos e romanos, aquilo que designava como Quinto Império - e a dinastia de Bragança era a escolhida para difundir o catolicismo nos novos territórios, entre as novas gentes.

Em 1652, regressou ao Brasil, mais precisamente ao Maranhão, e tornou-se missionário, mas acabou por ser perseguido e expulso pelos colonos, por combater ferozmente a escravatura dos índios nas plantações de cana do açúcar.

De regresso a Portugal em 1661, cinco anos após a morte de D. João IV, e sem a sua protecção, António Vieira foi finalmente apanhado pela Inquisição, que o perseguia há uma década, e condenado como herege por ter usado um texto não-canónico para fazer profecias, numa carta pessoal que lhe foi confiscada.

Passou cinco anos na prisão do Santo Ofício em Coimbra antes de partir para Roma para tentar que a sua sentença fosse revista, aí permanecendo durante seis anos, em que pregou à Corte Pontifícia e à exilada rainha Cristina da Suécia, de quem se tornou confessor.

Apesar do êxito alcançado com os seus sermões em italiano, assim que obteve, em 1669, o perdão do Papa - que o livrou para sempre da jurisdição da Inquisição - regressou a Lisboa.

Em 1681, com 73 anos, rumou novamente ao Brasil, na sua sétima viagem transatlântica, e aí viveu, na Bahia, até ao fim, em 1697, aos 89 anos.

Tolerância, convicções humanistas e um forte sentido patriótico caracterizaram o homem que se bateu, há 400 anos - em língua portuguesa - pelo respeito das diferentes culturas que falam a mesma língua, a defesa do direito a diferentes religiões e às liberdades, opondo-se à opressão e à escravatura, e a luta pela identidade própria e respeito da dos outros.

Em suma, lutou pela construção de uma cidadania global, numa época em que, em consequência das mudanças culturais resultantes de uma primeira globalização, todos os povos e culturas passaram a estar em contacto uns com os outros.

Em pleno século XXI, os estudiosos consideram que é essa a actualidade da vida e obra do Padre António Vieira: vive-se novamente uma época de globalização e, como ele escreveu, «a história é aquele espelho em que olhando para o passado se antevêem os futuros».

Em Portugal, a maioria identifica-o apenas como o autor do «Sermão de Santo António aos Peixes», uma obra que pertence há anos ao programa da disciplina de português do Ensino Secundário e que é invariavelmente encarada com bocejos de desinteresse.

No Brasil, chamam-lhe «Antônio» Vieira e consideram-no um escritor brasileiro.

Em ano de efeméride, 400 anos volvidos sobre o seu nascimento, o homem de Deus e do mundo será relembrado de ambos os lados do Atlântico.

 

O PADRE ANTÓNIO VAZ PINTO

 


                                                                                   

            

                                                                                                                                 

De uma família originária de Arouca, nasceu em Lisboa em 1942;

Estudos secundários no Colégio S. João de Brito em Lisboa;  

Estudou Direito na Universidade Clássica de Lisboa (até ao 4º Ano);

Entrou no Noviciado da Companhia de Jesus em Soutelo - Braga, em 1965;

Licenciatura em Filosofia em 1970;

Licenciatura em Teologia em Frankfurt (1971-1975); 

Ordenação Sacerdotal em 1974;

Director do Centro Universitário Manuel da Nóbrega em Coimbra (1975-84);

Capelão da Universidade de Coimbra em 1979-84;

Director do Centro Universitário Padre António Vieira em Lisboa;

Assistente da Rádio Renascença em Lisboa, em 1984-97;

Fundador da ONGD Leigos para o Desenvolvimento (1986);  

Fundador e Director do Centro Escolar de Apoio a Imigrantes S. Pedro; Fundador e membro da Direcção do Banco Alimentar Contra a Fome (1992);

Reitor da Comunidade Pedro Arrupe (formação de jovens Jesuítas) em Braga;

Professor de Filosofia da Universidade Católica de Braga;

Assistente Nacional das CVX (1998);

Superior da Residência do Porto da Companhia de Jesus;

Reitor da Basílica do Sagrado Coração da Póvoa do Varzim (2001);

Formação do Centro Comunitário de S. Cirilo, no Porto.

 

post-scriptum às 11:50

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Domingo, 30 de Março de 2008

Sermão de Santo António aos Peixes

Pregado em S. Luís do Maranhão, três dias antes de se embarcar ocultamente para o Reino (1654).

 Santo António a pregar aos peixes, séc. XVII

 
«Vos estis sal terrae» - S. Mateus, V, l3
 
 

I

 

Vós, diz Cristo, Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhes sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhes dão, a não querem receber. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores dizem uma cousa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores se pregam a si e não a Cristo ; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites. Não é tudo isto verdade? Ainda mal!

Suposto, pois, que ou o sal não salgue ou a terra se não deixe salgar, que se há-de fazer a este sal e que se há-de fazer a esta terra? O que se há-de fazer ao sal que não salga, Cristo o disse logo: Quod si sal evanuerit, in quo salietur? Ad nihilum valet ultra, nisi ut mittatur foras et conculcetur ab hominibus. «Se o sal perder a substância e a virtude, e o pregador faltar à doutrina e ao exemplo, o que se lhe há-de fazer, é lançá-lo fora como inútil para que seja pisado de todos.» Quem se atrevera a dizer tal cousa, se o mesmo Cristo a não pronunciara? Assim como não há quem seja mais digno de reverência e de ser posto sobre a cabeça que o pregador que ensina e faz o que deve, assim é merecedor de todo o desprezo e de ser metido debaixo dos pés, o que com a palavra ou com a vida prega o contrário.

Isto é o que se deve fazer ao sal que não salga. E à terra que se não deixa salgar, que se lhe há-de fazer? Este ponto não resolveu Cristo, Senhor nosso, no Evangelho; mas temos sobre ele a resolução do nosso grande português Santo António , que hoje celebramos, e a mais galharda e gloriosa resolução que nenhum santo tomou. Pregava Santo António em Itália na cidade de Arimino , contra os hereges, que nela eram muitos; e como erros de entendimento são dificultosos de arrancar, não só não fazia fruto o santo, mas chegou o povo a se levantar contra ele e faltou pouco para que lhe não tirassem a vida. Que faria neste caso o ânimo generoso do grande António? Sacudiria o pó dos sapatos, como Cristo aconselha em outro lugar? Mas António com os pés descalços não podia fazer esta protestação; e uns pés a que se não pegou nada da terra não tinham que sacudir. Que faria logo? Retirar-se-ia? Calar-se-ia? Dissimularia? Daria tempo ao tempo? Isso ensinaria porventura a prudência ou a covardia humana; mas o zelo da glória divina, que ardia naquele peito, não se rendeu a semelhantes partidos. Pois que fez? Mudou somente o púlpito e o auditório, mas não desistiu da doutrina. Deixa as praças, vai-se às praias; deixa a terra, vai-se ao mar, e começa a dizer a altas vozes: Já que me não querem ouvir os homens, ouçam-me os peixes. Oh maravilhas do Altíssimo! Oh poderes do que criou o mar e a terra! Começam a ferver as ondas, começam a concorrer os peixes, os grandes, os maiores, os pequenos, e postos todos por sua ordem com as cabeças de fora da água, António pregava e eles ouviam.
Se a Igreja quer que preguemos de Santo António sobre o Evangelho, dê-nos outro. Vos estis sal terrae: É muito bom texto para os outros santos doutores; mas para Santo António vem-lhe muito curto. Os outros santos doutores da Igreja foram sal da terra; Santo António foi sal da terra e foi sal do mar. Este é o assunto que eu tinha para tomar hoje. Mas há muitos dias que tenho metido no pensamento que, nas festas dos santos, é melhor pregar como eles, que pregar deles. Quanto mais que o são da minha doutrina, qualquer que ele seja tem tido nesta terra uma fortuna tão parecida à de Santo António em Arimino, que é força segui-la em tudo. Muitas vezes vos tenho pregado nesta igreja, e noutras, de manhã e de tarde, de dia e de noite, sempre com doutrina muito clara, muito sólida, muito verdadeira, e a que mais necessária e importante é a esta terra para emenda e reforma dos vícios que a corrompem. O fruto que tenho colhido desta doutrina, e se a terra tem tomado o sal, ou se tem tomado dele, vós o sabeis e eu por vós o sinto.

Isto suposto, quero hoje, à imitação de Santo António, voltar-me da terra ao mar, e já que os homens se não aproveitam, pregar aos peixes. O mar está tão perto que bem me ouvirão. Os demais podem deixar o sermão, pois não é para eles. Maria, quer dizer, Domina maris: «Senhora do mar»; e posto que o assunto seja tão desusado, espero que me não falte com a costumada graça. Ave Maria.

 

II

 

Enfim, que havemos de pregar hoje aos peixes? (...)

 

 

Santo António pregando aos peixes, óleo de Paolo Veronese, 1580 

 

post-scriptum às 23:33

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ESCOLA SECUNDÁRIA DE PALMELA


Este blog persegue os objectivos do «Plano Nacional de Leitura» e promove, paralelamente, a participação da Escola Secundária de Palmela no «Projecto Ler Consigo» da Associação de Professores de Português/APP.

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